22 de novembro de 2008

Sábado de Pipocas!



Para mim, é difícil nos dias de hoje escolher um lançamento de filme e assistir.
Sou mais romântica nos olhos, e acabo preferindo sempre locar os “velhinhos”... (risos).


Divagar nas preciosidades antigas, no lirismo e na visão do passado me transporta a agradáveis horas. Viajo! E gosto desse retorno mental cujos filmes antigos proporcionam...

Adoro tudo que é clássico e cult. Consigo ver poesia até mesmo nos filmes em preto e branco de guerras e faroeste. Você já parou para reparar no brilho, nas texturas e nas sombras dos filmes em preto e branco?

Hoje aluguei alguns dvds.
Quando já estava de saída, descendo as escadas da locadora deparei-me com um cartaz com o seguinte título: “Maus hábitos”. A priore pensei que fosse alguma releitura de Almodóvar, afinal, “Maus hábitos”, foi feito por ele em 1983.

Mas logo percebi que nada tinha de Almodóvar e na figura abaixo do título havia apenas um par de talheres. Nossa que intrigante! Pensei.

Os olhos agora aguçados pela lâmina da curiosidade se desprenderam de mim e foram ao encontro de mais informações... Diretor Simón Bross*, e acima um breve subtítulo:

“Uma pessoa só pára de comer quando
está muito cheia... Ou muito vazia”.

Decididamente essa sentença me fez dar meia volta e locar o filme sem pestanejar.
Precisei de uns bons 20 minutos para digerir essas 13 palavras...






Enfim, assisti ao filme.
Sei que não sou nenhuma Isabela Boscov, mas consegui sentir na religiosidade, nos líquidos e na doçura terna das cenas um impressionante estado de entusiasmo arrebatador.


Diria que o filme é assombroso! Não fala só de comida, e sim do ato de comer, aborda como as pessoas lidam com isso.
Não me estenderei mais porque além de não ser crítica de cinema, não quero retirar o encanto de vocês em vê-lo.
Mas a dica de hoje é essa!

E para acompanhar nada mais piegas, todavia, clássico... Pipoca*!!!


* Pipoca:
(grão de milho rebentado ao calor do fogo).
O milho cultivado para a produção de pipoca é de uma variedade especial, com espigas menores que as do milho tradicional.







Quando os grãos de milho são aquecidos de maneira rápida, a umidade interna é convertida em vapor.

Num determinado ponto, a pressão estoura a casca externa, transformando o grão de milho em pipoca propriamente dita.



Nas regiões de falar germânico do sul do Brasil surgiu, e se disseminou, o termo teuto-brasileiro Puffmilhe (puff = estoura ou estourado + milhe = milho).

Em outros países onde a pipoca não é muito popular, o nome é dado em inglês, popcorn, como por exemplo na Alemanha, onde poucas pessoas conhecem o alimento e que é comercializado apenas em pequenas escalas nos cinemas.

O grão de milho que não rebenta ao ser feita a pipoca é chamado de piruá, ou mururu.

A pipoca é um prato extremamente gorduroso. Cada 100 gramas de pipoca estourada possuem cerca de 13 gramas de gordura saturada, além de incríveis 792 calorias.


Rubem Alves, mineiro de Boa Esperança, fala que a pipoca é a metáfora do ato de pensar... Inesperada e imprevisível.

Abaixo segue o trecho de Rubem Alves escrito para o “Correio Popular” São Paulo.

... “A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela. Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem.

Lembrei-me, então, da lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblé baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblé...

A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido.

Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.

Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado.

Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!

E o que é que isso tem a ver com o Candomblé? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.

Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos.Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.”





Rubem Alves.

Tem gente que não só come como veste pipoca!

Produzido por Melisa Lozano para o International Flamenco Fashion Show (Sevilha- Espanha).

O que combina mais com pipoca, sem ser guaraná?
Ah! Chocolate, queijo ralado, pimenta, sucrilhos, raspa de limão, leite condensado, chantilly, doce de leite, paçoca, caramelo, caldinha de açúcar, manteiga com ervas...
Nossa são tantas coberturas que me ascendem o paladar que eu poderia ficar horas a escrever e salivar.

Segue uma combinação inédita:

Pipoca com ganache de chocolate meio amargo e farofa de amendoim.

Ingredientes para ganache:

500g chocolate meio amargo (em barra)
500 ml de creme de leite fresco
20g de manteiga derretida

Modo de preparo:

Para a ganache, Cortar o chocolate em pequenos cubos e derreter em banho Maria (60 graus). Acrescer o creme de leite morninho e a manteiga. Misturar até ficar homogêneo.

Fazer a pipoca normalmente e sem sal, dispor por cima a ganache e em seguida salpicar a farofa de amendoim.
Farofa de amendoim: Esmigalhar com as pontas dos dedos a paçoca.



*
Simón Bross:
Diretor da Garcia Bross & Associados e um dos mais reconhecidos e premiados diretores da cena publicitária do México e da América Latina. Co-produziu dois longas, "¿Quién Diablos es Juliette?" (1997), de Carlos Marcovich, e "Segundo Siglo" (1999), de Jorge Bolado.Produziu mais de 20 curtas. "Maus Hábitos", seu primeiro longa, foi premiado como melhor filme mexicano no festival de Guadalajara, prêmio do júri no festival CineVegas e também Zênite de Prata para Primeiro Longa de Ficção.


Referências:
Dicionário Aurélio.
Wikipédia
www.rubemalves.com.br



3 comentários:

Teodoro disse...

Minha mami é fascinada por pipocas! Vendo filme, ela devora um balde inteiro sozinha. Vai desanimar ao saber que tem tantas calorias... :( Beijos!

Unknown disse...

Bel, Parabéns!
Está simplesmente maravilhoso...
Que orgulho...
Amiga, sucesso sempre!
Beijos

lunatidoido disse...

Não tem como não ficar emocionado com esse seu texto.

Sempre busquei uma explicação racional para minha fissura por pipocas e nunca encontrei.

Mas eu lembro que quando eu era pequeno e ficava doente, minha mãe fazia pipoca pra mim. Hoje, em momentos de estresse, a pipoca atua como um estabilizador rápido de humor, tem gosto de nostalgia, uma nostalgia curativa.

Se bem que agora, perto dos 40, o metabolismo fica mais lento e a gente começa a se preocupar em gastar o que comeu, pra não ficar doente e acima do peso. Mas a pipoca, ah, essa ainda foge a regra, porque com a pipoca eu tenho um momento só meu. A pipoca, para mim, é o mais individual dos alimentos. Não quero dividir, não quero conversar enquanto como, e honestamente falando - apesar que não deve ser fácil para uma chef ouvir isso - mas eu não ligo a mínima pra bebida da vez que a acompanha.

Excelente blog!

Quem sou eu

Minha foto
Apaixonada por artes, vinhos, temperos e sabores. Formada em gastronomia pela Universidade Estácio de Sá e Alain Ducasse Formation. Início de carreira Passando pelas Confeitarias Colombo e Kholer, e estágio com Gerci Trevenzolli. Trabalhou como Chef de cozinha do Vieira Souto 500, Café d'France, Restaurante Zéfiro, Marias e Amélias Buffet, Sernambetiba Bistrot, e Restaurante Fiammetta - Rio Design Barra.