Baco, segundo Caravaggio
Meu pai, Richard, certo dia desses me veio com uma conversa de herança. Na mão, portava um livro muito diferente, enigmático, difícil...
Falou-me que era de consulta espiritual e direção quase que cabalística de vida.
Muito discrente, simplesmente me incomodei em guardar.
Arrumando as gavetas hoje, avistei o legado livro. Ao despontar a primeira poesia, descobri o porquê das palavras de papai, descobri que essa herança não era só para mim, e sim, para todos que estão ao meu lado, para todos que possuem um olhar romântico sobre a existência, mais ainda, que esse lindo legado, não de meu pai, e sim de Kháyyán, é para todos que amam vinho e amam viver...
Começo o post de hoje com Omar Kháyyám* Rubáiyát* :
" Todos os
reinos por uma
taça de vinho precioso.
Todos os livros e toda
a ciência dos homens por
um perfume suave de vinho!
Todos os hinos de amor
pela canção
do vinho que corre!
Toda a glória de Feridoum
pelos reflexos do vinho
na urna! "
De Otávio Tarquínio de Souza, eleito o mais fiel e justo em suas traduções de Kháyyán.
* Omar Kháyyám: Matemático e astrônomo nasceu em Nichapur ( Pérsia, atual Irã) no ano de 1040, morreu em 1120. Kháyyán quer dizer em persa fabricante de tendas, Omar elegeu esse nome em homenagem ao seu pai por exercer a profissão de fabricante de tendas.
* Rubáiyát, título do livro, quer dizer o plural da palavra Rubai, que significa quadras, quartetos.
Baco; para os Gregos Dionísio...
Deus da uva, do vinho, da orgia e da alegria. Suas festas representavam o drama de sua morte e ressurreição. Foi tenazmente perseguido pela ciumenta Juno que, não tendo conseguido eliminá-lo nas entranhas maternas e no berço, fê-lo enlouquecer, de cujo mal foi curado por Cibele. Tornando-se adulto, foi um grande auxiliar do pai na guerra dos deuses contra os gigantes; no combate, o senhor do Olimpo, cheio de entusiasmo, o estimulava com a exclamação: " Evohé ! Baco evohé ! " ( Coragem Baco coragem ! ). Mais tarde, tendo ele encontrado, na ilha Naxos, a jovem Ariadne, filha de Minos, amargurada pelo abandono por parte de Teseu, consolou-a, desposou-a, e levou-a para o Olimpo, havendo dessa união um filho que se chamou Priapo.
Baco e Ariadne, por Agostino Carracci, séc. XVI.
Sinto que cada uva traz com ela uma alma condizente, fazendo com que cada garrafa seja também exclusiva. Sou feita de Malbec... (risos). Meu cerne se encanta, brilha quando a estrutura de um bom Malbec se faz em minha boca.
É uma relação simbiótica entre mim e o vinho, uma pausa para o prazer, um olhar interno de descobertas.
Todos vocês deveriam encontrar a uva que mais os incita. Abaixo segue uma pequena contribuição. Herança de Baco... Tim tim, um brinde!!
Uvas para vinhos tintos:
Cinsault - Cepa encontrada principalmente na região de Languedoc-Roussilon, na França. Ali é associada à grenache e à carignan, e produz bebidas leves e pouco aromáticas. Na região do Rhône, a mesma uva com melhores cuidados produz vinhos mais concentrados e aromáticos. No Líbano, é responsável pelo emblemático Château Musar.Países: França, Espanha, África do Sul e Líbano.
Dolcetto - Uva italiana que apesar do nome não é doce. Vinificadas resultam em rótulos suaves do Piemonte, próprio para o dia-a-dia, com alta acidez e que devem ser bebidos ainda jovens. Na região do Piemonte, melhor tratada, a uva é envelhecida em barris de carvalho e resulta em líquidos mais ricos e complexos.País: Itália, Arrentina e Austrália.
Gamay - É a uva usada na produção do Beaujolais, um vinho mais leve, produzido nesta região da Borgonha, para ser bebido bem jovem. Os rótulos mais conhecidos são de Beaujolais Noveau, que são lançados todo mês novembro. Mas há rótulos de maior qualidade, com capacidade de envelhecimento, os chamados Cru Beaujolais. Os aromas de morango, cereja e banana são característicos do vinho produzido com a uva gammay.País: França (Borgonha).
Grenache - Apesar de ser uma uva muito cultivada no mundo é pouco vista em rótulos de garrafas pois é usualmente misturada. É presença fundamental do renomado Châteauneuf-du-Pape e na maioria dos vinhos do Rhône. Países: França (Rhône), Espanha, Austrália, Itália e Estados Unidos.
Lambrusco - Uva tinta cultivada em toda a Itália, em especial na região da Emilia-Romana. Há mais de sessenta subvariedades conhecidas. Apesar de também produzir bons vinhos de denominação de origem, é mais conhecida no Brasil pelos vinhos frisantes, semi-doces e baixo teor alcoólico e que devem ser bebidos jovens.País: Itália.
Malbec - Originária de Bordeaux, onde é muito tânica, e usada somente misturada a outras cepas, esta uva se tornou emblemática na Argentina, onde é responsável pelos melhores vinhos tintos produzidos no país, de cor escura, denso e aromas florais. Começa a render alguns rótulos no Chile também.Países: França, Argentina e Chile.
Merlot - Similar à cabernet sauvignon, entretanto mais suave, tem sabor mais macio, menos tanino e aromas mais frutados. Tem uma maturação mais fácil e rápida que sua parceira cabernet. Pode desenvolver aromas de chocolate e frutas vermelhas maduras quando colhidas com a maturação correta. Base de grandes vinhos do Pomerol, como o famoso Château Petrus. Na Califórnia, nos Estados Unidos, também rendeu grandes exemplares. Também muito usado no Novo Mundo e plantada em várias partes do planeta onde se faz vinho.Países: França (Bordeaux), Norte da Itália, Estados Unidos, Chile, Austrália, Nova Zelândia, Argentina, Brasil.
Montepulciano - Variedade cultivada por toda Itália, com maior destaque na região central. Produz vinhos mais rústicos e é muito usada junto à sangiovese. Não deve ser confundida com a cidade da região da Toscana de mesmo nome, que produz o famoso Vino Nobil di Montepulciano, que aliás é feito a partir da uva sangiovese.País: Itália.
Mourvèdre - Uva típica do Sul da França, mas também muito cultivada na Espanha. É um pouco tânica e tem um toque animal. Geralmente é misturada a outras uvas, como shyrah, grenache e cinsault. Ajuda a dar cor e estrutura ao vinho. Bastante utilizada na Provence, na França, e na Rioja e Penedès, na Espanha.Países: França, Espanha e Austrália.
Nebbiolo - Nebbia em italiano significa névoa, uma característica do clima da região onde esta variedade é cultivada, nos montes de Alba e Monforte. Resulta no nome da uva que produz os melhores e mais valorizados tintos italianos: Barolo e o Barbaresco. São bebidas intensas, frutadas, bastante tânicas, de aromas complexos (florais, frutas e trufas) e com alta acidez, o que torna obrigatório o envelhecimento em barris de carvalho para aparar as arestas. Melhora com os anos e acompanhado de um prato de comida mais forte.País: Itália.
Nero d'Avola - Cepa típica da região de Sícilia, no Sul da Itália. Produz vinhos de qualidade, escuros, densos e com potencial de envelhecimento.País: Itália.
Periquita - Plantada no sul de Portugal, produz vinhos de boa estrutura, que envelhecem bem; é também a marca do popular tinto lusitano mais exportado para o Brasil.País: Portugal.
Petit verdot - Variedade típica da região de Bordeaux, na França. Possue sabor, cor e taninos ao corte bordalês.País: França (Bordeaux).
Pinot Noir - Uva típica da Borgonha, produz os vinhos mais admirados pelos enólogos e enófilos do mundo. Sua qualidade está ligada diretamente ao terroir onde está plantada. É uma uva de difícil de cultivar e vinificar e pode gerar tanto tintos inexpressivos como muito complexos. São vinhos de coloração clara para média com relativo baixo tanino e acidez. Os grandes pinot noirs têm aroma intenso, complexo e sensual, e evoluem muito bem na garrafa. Os exemplos mais clássicos são os renomados (e caros) vinhos de Romanée-Conti, Volnay, Clos de Vougeat e outros tantos da Borgonha. Menos feliz em outras regiões do mundo, tem apresentado algum sucesso no Chile com preços bem mais acessíveis. A pinot noir também faz parte da receita que compõem os vinhos da Champagne.Países: França (Borgonha, Champagne), Chile, Itália, África do Sul.
Pinotage - Uva criada da África do Sul, surgida em 1920, do cruzamento entre a pinot noir e a cinsaut realiazada pelo professor Perald. Pode resultar num vinho muito frutado (banana, frutas vermelhas) e capaz de envelhecer bem em barris de carvalho. Os exemplares mais simples lembram borracha queimada e são muito rústicos.País: África do Sul.
Sangiovese - Trata-se da variedade mais plantada na Itália, é a base dos grandes vinhos da Toscana - Chianti, Brunello di Montalcino e Vino Nobilo de Montpulciano. O nome significa o sangue de Júpiter. É uma cepa de amadurecimento tardio, bem ácida, tânica e frutada.Países: Itália, Estados Unidos e Argentina.
Syrah/Shiraz - Uva do Rhone, na França, que resulta vinhos de coloração intensa, bem encorpados e aromáticos e na boca evocam frutas vermelhas (amoras). Na Austrália, com o nome de Shiraz, dá exemplares tânicos, apimentado e de boa maturação. É responsável pelos grandes rótulos deste paísPaíses: França (Rhône), Austrália, África do Sul e Argentina.
Tannat - Uva do sudoeste da França, hoje é a variedade emblemática do Uruguai, altamente tânica e com perfume de amora e framboesa. Bons produtores têm domado o tannat no Uruguai e bons rótulos têm surgido no mercadoPaíses: Uurguai e França.
Tempranillo - A mais importante uva de qualidade da Espanha, cultivada nas regiões de Rioja e Ribeira del Duero. Usualmente misturada à garnacha e mazuelo. Dá um vinho colorido, com baixa acidez, pouco tânico e que envelhece bem no carvalho que lhe confere aromas de tabaco.Países: Espanha, Portugal e Argentina.
Touriga francesa - Mais leve que a touriga nacional, também é parte da receita do vinho do Porto. Usado ainda em tintos secos de mesa da região do Porto.País: PortugalTouriga Nacional - uva autócne superior, presente em vinhos portugueses; encorpado, de cor forte, sabor intenso e muito tânico é típico da região do Douro. Usada na receita do vinho do Porto, também é uma uva que produz varietais com muita tipicidade. Países: Portugal e Austrália.
Zinfandel - Produz tintos secos com muito colorido e frutado, com notas de pimenta e sabor que lembra groselha preta. Uva característica dos vinhos da Califórnia, apesar de ser originária do sul da Itália, onde tem o nome de primitivo.Países: Estados Unidos (Califórnia), Itália.
Uvas para vinho branco:
Alvarinho - Responsável pela produção na região do Minho, em Portugal. É uma uva que confere boa acidez, aroma e certa efervescência ao vinho.Países: Portugal e Espanha.
Chardonnay - Uva branca fácil de cultivar e vinificar. Está espalhada em todo o mundo. É usada na produção de clássicos de alta qualidade e reputação na Borgonha, como Chablis, Montrachet e Poully-Fussé, além de ser um importante ingrediente do campanhe. Por não ser uma uva aromática, a passagem pelo barril de carvalho lhe confere maior complexidade em algumas regiões, principalmente do Novo Mundo, onde mostra um toque amanteigado e tostado. Países: França (Borgonha), Estados Unidos (Califórnia), Austrália, Nova Zelândia, Chile, África do Sul, Argentina, Brasil.
Chenin Blanc - Variedade do Loire central, na França, de aroma floral, produz vinhos secos ou doces - neste caso, quando são atacadas pela podridão nobre, que lhes confere maior teor de açúcar. Países: França (Loire), EUA, África do Sul (conhecida como steen), Austrália e Nova Zelândia.
Clairette - Uva branca cultivada no sul da França. É uma das variedades autorizadas no vinho tinto Châteauneuf-du-pape e brancos Côtes-du-Rhône. Na Austrália é conhecida como blanquette.Países: França e Austrália.
Furmint - Os renomados grandes vinhos doces Tokay, da Hungria, são feitos desta variedade. Sua fina casca facilita a ação do fungo Botrytis cinerea, que aumenta o teor de açúcar à uva.Países: Hungria, Eslováquia, Croácia e Romênia.
Gewürztraminer - Em alemão significa "especiarias". Produz vinhos brancos ricos, de cor amarelo-ouro e aroma intenso (rosas, canela e gengibre). Encontrou seu melhor solo na região francesa da Alsácia, mas também é encontrada na Alemanha e outras regiões de clima frio.Países: França (Alsácia), Alemanha, Itália, Chile, África do Sul, Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia.
Malvasia - Das mais antigas uvas brancas que se conhece (cerca de 2.000 anos). Apesar de produzir vinhos secos no sul da Itália, se notabilizou pelo vinho fortificado que produz em Portugal (Madeira)Países: Portugal, Itália e Espanha.
Muscadelle - Típica variedade de Bordeaux, na França, usada principalmente para vinhos doces produzidos em Barsac e Sauternes. Como é muito aromático, é usado em pequenas quantidades quando misturados a vinhos doces baseados das uvas sémillon e sauvignon blanc.País: França.
Muscat (Moscato e Moscatel) - Plantada no mundo todo é própria de vinhos doces perfumados. É a única uva vinífera que preserva os aromas de uva no vinho e talvez uma das espécies mais antigas ainda cultivadas. Usada para vinhos secos na Alsásia e para espumantes do tipo Asti Espumante e Moscato Bianco.Países: França (Alasácia), Portugal, Espanha e Itália.
Palomino - Principal uva do vinho fortificado do Sul da Espanha, xerez.Países: Espanha, Estados Unidos e AustráliaPedro.
Ximenez - Outra variedade do sul da Espanha utilizada nos vinhos fortificados xerez, como o Olorosso.País: Espanha.
Pinot Blanc - Esta uva produz vinhos leves, secos, frutados, para se beber jovem, principalmente aqueles produzidos na Itália. Original da Borgonha, na França sua base é a Alsácia.Países: França (Alsácia), Itália, Áustria e EUA.
Pinot Gris - Da família pinot noir, resulta em vinhos brancos leves, jovens e secos na Itália e mais ricos e perfumados, na região francesa da Alsácia. Países: França (Alsácia), Itália, Alemanha, Hungria e Nova Zelândia.
Prosecco - Encontrada na região de Vêneto, na Itália, é responsável pela produção de espumantes frescos, frutados, com pouco acidez e paladar. Não se trata, portanto, de uma região, como muita gente pensa, mas de uma uva, usada por este espumante que se difundiu por todo o mundo.Países: Itália, Brasil.
Riesling - Junto com a Chardonnay é considerada a melhor uva branca do mundo. Produz vinhos com acidez elevada e teor alcoólico baixo (8ºC). Os melhores riesling são encontrados na Alemanha e produz vinhos de grande qualidade que é metido pelo seu teor de açúcar. Aromas delicados e florais. Países: Alemanha, Áustria, Austrália, Nova Zelândia, França (Alsácia) e EUA.
Sauvignon Blanc - Tem acidez aguda, fresco, aspectos minerais e bastante frutados no Novo Mundo. Mantém a limpidez pois raramente fica impregnada de carvalho. Na França, alcança melhores resultados em rótulos da região do Loire. É misturada com Sémillon em Bordeaux. Também é parte da composição dos vinhos doces de Sauternes e Barsac. Na Nova Zelândia, encontrou o solo ideal para produção de vinhos que colocaram o país no mapa do mundo do vinho.Países: França (Loire, Bordeaux), Nova Zelândia, Chile, Áustria e África do Sul.
Sémillon - Tanto vinhos brancos secos de Bourdeaux como vinhos doces da região de Sauternes, na França, usam esta variedade (como o Château D'Yquem, 4/5 de sémillon e 1/5 de sauvignon blanc). Varia sua característica de acordo com a região que é cultivada: aromas cítricos e adocicado em Bordeaux e amanteigado e com grande potencial de envelhecimento na AustráliaPaíses: França (Bordeaux), Austrália Nova Zelândia, África do Sul, EUA.
Tocai - Variedade branca cultivada na região italiana de Friuli-Veneza, que produz vinhos encorpados e elegantes. Não há qualquer relação da uva Tocai com os renomados vinhos húngaros doces Tokay (produzidos com a cepa furmint).País: Itália.
Trebbiano - Produz vinhos brancos mais comuns e sem personalidade na Itália. É plantada extensivamente em todo o país. Usada no corte com outras uvas para a composição de vinhos. Com o nome de ugni blanc e saint-émilion é muito usada na produção de conhaque e armagnac, na França. Países: Itália, França, África do Sul e Austrália.
Viognier - Uva que produz vinhos brancos secos e com toques florais, bastante perfumado. De origem francesa, vem sendo redescoberta nos últimos anos. Produz vinhos muito ricos e refrescantes, para serem bebidos jovens. Países: França, Austrália, África do Sul e Argentina.